POESIA, FOTO, ARTES & AFINS
PHOTO: HORSES IN ACTION

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POÈME: FERNANDO PESSOA - NÃO SEI QUANTAS ALMAS TENHO
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.
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PELÍCULA: PARIS TEXAS - WIN WENDERS
Poucos filmes conseguem traduzir em imagens aquilo que muitas vezes escapa às palavras. Paris, Texas, de Wim Wenders (Asas do Desejo), é um desses raros casos. A história de Travis (Harry Dean Stanton, Lucky), um homem que ressurge do deserto em estado quase espectral, vai muito além de reencontros familiares: é um mergulho profundo no vazio, nas feridas e nos silêncios que moldam nossas vidas.
Wenders transforma a paisagem árida dos Estados Unidos em um espelho da alma de seu protagonista. Cada estrada interminável, cada motel esquecido e cada horizonte tingido pelo pôr do sol sugere não apenas deslocamento físico, mas uma travessia emocional. A solidão não é tratada como ausência, mas como presença constante ? uma força que organiza a narrativa e dá sentido às pausas, aos olhares e aos espaços entre as palavras.
A relação entre Travis e seu filho, Hunter (Hunter Carson), funciona como um fio delicado que costura a narrativa. Nesse reencontro hesitante, marcado por gestos mínimos e conversas fragmentadas, o filme revela sua ternura escondida. Mais do que um drama familiar, Paris, Texas é uma reflexão sobre o que resta depois do desgaste dos afetos, sobre a dificuldade de habitar o silêncio sem se perder nele.
O ápice chega no célebre diálogo entre Travis e Jane (Nastassja Kinski, Tess), separados por um vidro, unidos por uma verdade tardia. Ali, a melancolia encontra sua forma mais pura: não há redenção completa, mas há beleza na confissão, no reconhecimento do fracasso.
Paris, Texas é cinema que respira devagar, que exige entrega ao tempo, ao vazio e à contemplação. Wim Wenders nos entrega um dos mais belos filmes já feitos e também nos lembra que há grandeza nos instantes em que aparentemente nada acontece, porque é ali que a vida pulsa de forma mais verdadeira. No fim, o filme prova, mais do que nunca ? ainda mais com a nova versão remasterizada em 4K ?, que existe poesia e beleza na solidão melancólica.
PENSIERO DELLA GIORNATTA: FRIDA KHALO
Pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui. Nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade.
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